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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - III Capítulo





A primeira coisa que o trio notou, logo ao passar pelo buraco no muro, foi uma sensação claustrofóbica angustiante. Era como estar dentro duma caixa de fósforos. Sentiam cheiro forte de mato e insetos zunindo a volta deles como abelhas cercando o mel.
- Pera, eu vou dar um jeito. - Bernardo meteu a mão no bolso na calça, tirando uma lanterna.
O pequeno facho de luz foi suficiente para lhes dar noção do ambiente que os cercava. Mesmo terrenos baldios eram mais bem cuidados Touceiras espessas de mato cresciam por toda parte, tão altas que mesmo esticando o braço não se alcançava o topo.
Ecoou-se sons de tapas. Bernardo iluminou o rosto de Adriano e mesmo sobre a pele morena eram visíveis às mordidas de mosquitos. 
- Ai. – Bernardo direcionou a luz da lanterna para o chão pedregoso, aos pés de Rafael. Usando calça preta, a cor parece viva, antes de Bernardo constatar que eram formigas.
Assim que percebeu, Rafael se apavorou. Jogou longe o skate e sem pensar arrancou a calça e a atirou no chão, onde os insetos, como granulados vivos, terminaram por reivindicar a posse do estranho objeto. Enquanto isso, o menino não parava de mandar, aos gritos, que Bernardo iluminasse suas pernas. Intermináveis cinco minutos se passaram até o menino parar de esbofetear as pernas nuas, e se acalmar.
- Que situação. – Reclamou Adriano, dando leves batidinhas no saco de pães para espantar os mosquitos.
- Tô ferrado, meus pais vão me matar. – Imaginou Rafael, olhando para o que um dia foi suas calças. Seu rosto está lívido e molhado. Fosse por causa do calor, do medo da punição dos pais ou choro, Bernardo não perguntou.
- Animo galera, a gente consegue.
A tentativa bem intencionada de Bernardo de manter o moral elevado parecia uma piada cruel. A sua frente havia dois garotos, um de rosto coberto de picadas de mosquito e outro sem calça. E ambos olhavam Bernardo como querendo dizer “é brincadeira?”.
- Meu skate. – Rafael encontrou o objeto de estimação, caído como um pedaço velho de madeira por entre o mato. Inteiro ou quase; uma das rodinhas estava faltando.
- Ouviram isso?
- O quê?
- Isso. – Bernardo se calou. Dali a pouco, todos escutam.
Adriano não soube dizer o que tinha ouvido, mas buscou uma explicação plausível.
- Na certa deve ser um rato.
- Ratinho barulhento.
- Tá, uma ratazana então.
Adriano podia passar a noite dando nomes de animais que não convenceria Bernardo. O som tinha uma singularidade que tornava impossível ser confundido com um animal; se parecia com voz humana. Estava distante, calculou o menino, dez metros no mínimo.
- Pode ser o ET.
- E dai, não temos como abrir caminho nesse mato.
Bernardo olhou para Rafael que imediatamente compreendeu a intenção do amigo. E como um cão protegendo o osso, guardou o skate debaixo do braço. Bernardo não desistiu. Procurou, xeretou, e achou uma barra de ferro encostada no muro.
- O.K – Disse, empunhando com as duas mãos o objeto de cerca de um metro. – podemos ir.
Usando a barra e um pouco de força bruta, Bernardo ia "deitando" as touceiras, erguendo, no processo, uma nuvem de mosquitos agitados. Rafael vinha logo atrás, ainda queixando-se pela perda da calça. Adriano, cobrindo a retaguarda, meio que desempenhava o papel de sentinela, atento a qualquer coisa que visse ou ouvisse. A despeito dos infortúnios sofridos, a noite era linda.
Como lâmpadas de natal, um mar de estrelas enfeitava os céus. De brilho intenso ou apagado, solitárias ou em grupos, a posição peculiar que ocupavam criava desenhos que os antigos e modernos astrônomos conheciam pelo nome de constelações. Adriano possuía conhecimento raso sobre assuntos relacionados a espaço. Se perguntado, sabia o nome dos oito planetas do sistema solar, o nome da galáxia na qual se encontrava o sistema solar, e mais uma ou duas coisas. Rafael mostrava igual conhecimento limitado. Certa vez, durante uma prova oral, deu o nome de todos os planetas... De um jogo de RPG.
Bernardo demonstrava interesse um pouco maior pelo assunto, inclusive ufologia. Sendo o universo tão vasto era inconcebível a ideia da raça humana ser a única espécie evoluída. Bernardo tinha um espirito desbravador, a palavra impossível simplesmente não era possível de existir.



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Olhando os céus, Adriano estranhou uma mancha preta pairando no ar sobre a cabeça de Rafael. Num movimento brusco de Bernardo lutando para aplainar o mato a frente, a coisa some.
- Não se mexe Rafael. – Falou com calma, tentando não provocar pânico. – Tem uma aranha grudada nas suas costas.
Antes de Adriano pensar em como removeria o aracnídeo, Rafael arranca pelo avesso a própria camiseta, a atirando por sobre o mato. Durante um tempo que ninguém saberia dizer a duração, o trio permaneceu imóvel, olhando na direção onde a camiseta fora lançada. Vendo-o ofegante, só de tênis e cueca amarela, Adriano não pode evitar achar a cena engraçada – mas evitou rir.
O calvário chega ao fim. O mato-alto se dissipa, substituído por árvores. Bernardo iluminou a frente, enxergando um emaranhado de teias que se sobrepunham. Cutucou-as com a ponta da barra de ferro. Nenhuma aranha ou inseto aparece. Constatou que as teias foram abandonadas. Com cautela foi dividindo os fios de seda, terminando por revelar um caminho natural por entre as árvores.
Escutaram o estranho ruído com mais nitidez. A recompensa por tantos contratempos estava próximo. Bernardo imagina que aparência o extraterrestre teria. Seria como dos filmes hollywoodianos, corpo franzino e cabeça volumosa? Já Adriano pensa se o alienígena possuía boa audição. Com a barulheira que faziam, o ET teria tempo de sobra para fugir. Para Rafael, cada passo o levava crer estar indo de encontro um cadáver.
- Argh, cheiro ruim. Esse ET deve ser porco pra feder tanto.
- Pode ser um sistema defensível, como fazem os gambás.
- Tá dizendo que ele está com medo da gente?
- Ele nunca deve ter tido contato com seres humanos. Não sabe o que esperar.
Rafael virou-se para Adriano, gesticulando com as mãos a indicar que Bernardo estaria louco.
A cada novo passo o mau cheiro crescia. Algo semelhante um corpo queimando. Nem Bernardo achava mais que pudesse ser um sistema biológico de defesa. Quando pensou desistir, algo o surpreende; por entre a cortina de galhos e folhas, enxergou um tênue contorno esverdeado. Apagou a luz da lanterna e gesticulou com a mesma, indicando para Adriano e Rafael se aproximarem em silêncio.
Os meninos se posicionam cada um de um lado de Bernardo. Não eram bons em calcular distância, ainda mais naquele breu, mas arriscaram uns cinco metros entre eles e o ET. Pela postura arqueada, devia estar agachado e mexendo em algo. Então, como um capitão usando linguagem de sinais, Bernardo indica para avançarem.

Conforme andavam, o tênue contorno verde se evidenciava assim como o mau-cheiro. Não deram bola. Provavelmente o ET se alimentava de algum bicho morto que encontrou. Se escondendo atrás de um velho tronco caído, o trio espia por entre as frestas. O que veem os faz ter ânsia de vômito.




Continua...

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

JUCA





Que animal estranho e incrível. Pelo aspecto sem dúvida foi feito para viver em ambiente marinho. Algo nele lembra vagamente um peixe (talvez seja aquela nadadeira dorsal e caudal parecidas com as dos tubarões). Ele também tem algo de reptiliano. Extinto a mais de 65 milhões de anos, o Ictiossauro deve ter proliferado em todos os mares do mundo. Seu designe inovador deu tão certo, que o grupo existiu durante grande parte da Era Mesozoica, desaparecendo pouco antes da extinção dos dinossauros. Desenvolveram-se para uma ampla gama de formas e tamanhos, tendo certas espécies atingindo dimensões encontradas só entre os maiores cetáceos. Paleoartistas comumente os retratam em cenas de ação, com agilidade equiparáveis aos modernos golfinhos, rasgando as águas em perseguição a cardume de peixes e lulas.












Criação: Pouco depois do lançamento da Turma do Fundo-do-Mar, comecei a bolar a ideia para uma historinha que tivesse como pano de fundo o mundo marinho pré-histórico, mostrando o cotidiano de animais extintos. A ideia meio que surgiu da influência de documentários da BBC, como a consagrada série Walking With Dinosaurus (traduzido aqui para o Brasil como Caminhando com os Dinossauros de 1999).
E quem seria o protagonista para apresentar a visão desse mundo perdido? E em que período (Triássico, Jurássico, Cretáceo) os eventos se dariam?
Pensei em retratar a vida de um Mosassauro, apresentando-o como um jovem recém-independente buscando estabelecer seu lugar na sociedade. Depois imaginei apresentar um dia na vida de um tubarão (Stethacanthus, Hybodus ou Sarcoprion). Motivo de eu não ter escolhido o Mosassauro é porque não achei que ficaria interessante (não para o que imaginava). Descartei usar o tubarão porque não é um animal que associamos de imediato à pré-história (os vemos o tempo todo em documentários). Tinha que ser um animal ícone da Era mesozoica, um que não fosse o maior predador do período ao mesmo tempo desempenhasse sua função na comunidade. Assim nasceu Juca, um Ictiossauro de 3 metros de comprimento protagonista da história Uma Aventura de 100 Milhões de Anos!!. O foco da história está na “tentativa” de Juca de mostrar as técnicas de caça da espécie, ao mesmo tempo em que compete com outros predadores. Com uma linguagem simples e imagens com fluidez, foi pensada para o público infantil.




Aparência: Imaginei Juca parecido com Marino, o golfinho que integra o grupo Turma do Fundo-do-Mar. De fato nos primeiros rascunhos desenhei Juca aproveitando a estrutura de Marino. Os dois ficaram extremamente parecidos, exceto pelo segundo par de nadadeiras e o rabo em forma de peixe. Na posterior mudança que fiz, alonguei a boca e dei ao corpo uma aparência mais rotunda. Ictiossauro, (maioria das espécies) possuíam grande olhos, o que ajudou a realçar seu aspecto infantil. Apesar da boca ser cheia de dentes, não achei que ficaria bem desenhá-los. Finalmente aumentei o tamanho dos olhos e conferi algumas manchas encima da cabeça e próximo a cauda. 
A "cor" de Juca tem base em fundamento científico. No começo o imaginei tendo uma coloração azulada. Mas não me pareceu natural. Quando experimentei o preto, a cor se integrou ao personagem. Segundo recentes pesquisas que tentam desvendar justamente a "cor da moda", certos repteis marinhos podem ter tido uma tonalidade escura, ou mesmo negra, que os ajudaria a camuflar-se (para presas ou predadores).



Personagens:


A despeito de imprecisões de data, Todos os personagens foram baseados em espécies reais. Sete das oito espécies, contando com Juca, aparecem na capa.

STETHACANTHUS

Um tubarão com uma estranha barbatana dorsal. Aparece primeiro competindo com um enorme Pliossauro o mesmo peixe, depois em grupo.








SARCOPRION

Tubarão de focinho alongado, aparece competindo com Juca, perdendo a presa para um Metriorhynchus.









HYBODUS

Tubarão com dupla nadadeira dorsal, aparece competindo com Sarcoprions e Plesiossauros.











METRIORHYNCHUS


Crocodilo-marinho, compete com praticamente todos os predadores, inclusive outros metriornynchus.





PLESIOSSAURO

Compete ativamente com Sarcoprions e Hybodus (e os de sua espécie), terminando por fugir apavorado de um pliossauro predador.






Pliossauro: Dois tipos são retratados, mas não é feita menção as suas espécies. O primeiro é visto competindo diretamente com Sethacanthus por peixes, enquanto o segundo persegue predadores menores em comportamento de caça. Dado seu tamanho, esse monstro seria um Pliosaurus Funkei.



Leedsichthys: um gigante pacífico, o peixão acaba fazendo Juca perder sua presa. Sorte a dele o colosso ser um filtrador ambulante. 




Curiosidades:


  • O nome Juca é um trocadilho da palavra Jurássico.
  • Juca é o único personagem a ter um nome próprio.
  • Cronologicamente a história se passa em algum momento do período Jurássico.
  • Ao final da historinha um material especial com dados dos animais visto na edição.
  • O Stethacanthus da vida real tinha um comprimento máximo de 70 cm. O da historinha possui 2 metros.
  • O material fóssil do Sarcoprion é escasso, razão pela qual é difícil determinar seu tamanho exato. O da historinha possui 3 metros.
  • A história já estava concluída no comecinho do ano. Usei-a para participar de um concurso de literatura (razão pela qual precisei segurá-la até a divulgação do resultado, antes de poder publicá-la).
  • Nem todos os animais vistos na edição viveram no mesmo período (principalmente os tubarões retratados). O Sarcoprion é datado do Permiano, o Stethacanthus é de um período anterior, o Carbonífero. Hybodus teria vivido até o fim da era dos dinossauros. 



Extras!


Link para ler a matéria completa sobre a cor dos répteis-marinhos antigos
Link para visualizar as primeiras páginas do livro

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - II Capítulo


Da garupa da bicicleta Adriano olhava para a imensidão do céu-noturno, onde estrelas se materializavam sobre um manto azul profundo, cada uma brilhando num ritmo próprio. Devia ser mais de 18h00. Gastaram quase meia-hora só para chegar ao parque municipal. A ideia de ver um ET não parecia tão atraente. Pensava arrependido na mãe e em como ela devia estar e sentindo. Naquele momento, muito provavelmente, devia estar aos prantos na frente de um escrivão registrando um B.O. Como faria para explicar?
Os pensamentos pavorosos se dissipam como fumaça quando Bernardo freia a Bicicleta, parando a um metro da cancela do parque. Adriano fica sem entender muito bem a atitude do amigo, já que podiam entrar pelo portão de pedestres, ao lado. Logo, porém, o motivo torna-se óbvio.
- Está fechado. – Informou-lhes uma voz autoritária. De dentro da guarita um homenzarrão emerge, grande como os gigantes de histórias fantásticas. Do lado direito da cintura portava um cassetete que era praticamente do tamanho do skate de Rafael. Do lado esquerdo, uma lanterna e um rádio comunicador.
- Mas tem gente entrando. – Protestou Bernardo, apontando para um grupo misto de moças e rapazes.
- Está fechado para vocês. – Frisou o segurança.
- Por quê? – Perguntou Rafael, olhando feio o homenzarrão.
- Menores de idade desacompanhados de adulto, não entram depois das seis.  
Bernardo fez cara de inconformado. Adriano suspeitava que isso acabaria acontecendo. Conhecia de conversas que ouviu a reputação que o parque municipal tinha, principalmente ao cair da noite. Um lugar bonito de se frequentar a luz do dia, virava território de ninguém ao escurecer, e mesmo a segurança sendo presente, eram comuns casos de assalto e tráfico de drogas. Nenhum adulto sensato permitiria o acesso de crianças como eles. Pena não ter-se lembrado disso quando encontrou os amigos na rua de casa.
- Vamos ficar na trilha. – Bernardo tentou argumentar, sem resultado.
- Voltem pela manhã ou daqui nove anos. – Sentenciou o segurança, cruzando os braços, parado imóvel como um monólito, esperando o trio partir.
Com certa relutância, o grupo acata a decisão. O segurança ainda acompanhou-os com os olhos, voltando para a guarita só depois dos meninos dobrarem a esquina.
- Ta legal. – Disse Bernardo decidido. – Vamos fazer do modo difícil.
Rafael e Adriano estranharam. Não atravessaram o farol sentido o bairro, que era o correto. Continuaram seguindo pela calçada do parque, cada vez mais afastando-se da zona movimentando.
- Ei, esse não é o caminho certo. – Disse Adriano, já suspeitando das intenções do amigo. – Mesmo que tentemos por outro portão, não nos deixarão entrar.
Bernardo parou de pedalar. Pararam justamente num lugar sem iluminação – nenhuma que pudesse fornecer conforto ou sensação de segurança. A noite estava clara, com o céu pontilhado de estrelas. Mesmo assim, ao nível do chão, conseguiam distinguir pouco mais que contornos borrados.
- Vamos entrar. – Disse Bernardo, encostando a bicicleta no muro. Boa parte dos 994 mil metros quadrados do parque municipal era cercada por muro, e não era segredo que muitos trechos estavam esburacados.
- Quer que entremos ai? - Rafael apoiou a mão na abertura em V invertido do muro, espiando o interior, forçando o máximo a vista. – Mal da pra ver o que tem lá dentro.
- Vocês querem ou não querem ver o ET?
Adriano explodiu.
- Que garantia a gente tem de que vamos encontrar o ET? O parque é enorme, ele pode estar em qualquer parte... Se é que ele existe.
- Ele existe. – Reiterou Bernardo, não gostando do tom do amigo. – Vamos acha-lo e quando o virmos você vai me pedir desculpas.
- Desculpas pelo quê? – Perguntou Adriano, avançando contra Bernardo. – Por nos colocar nessa encrenca?
- Ninguém te forçou a vir. – Brigou Bernardo, encarando Adriano nos olhos.
- Vim porque achei que seria legal. Agora minha mãe nunca mais vai me deixar por os pés fora de casa.
- Ele ta certo. – Apoiou Rafael. – Meus pais me deixam andar na rua de casa, mas me proibiram de vir ao parque à noite. Eles devem estar uma fera.  
Depois desse tenso dialogo, faz-se silêncio. O peso da culpa duma decisão irresponsável tirou toda a empolgação que tinham de continuar. Calados, cada um faz uma autoanalise. Adriano sentia verdadeiro remorso por trair a confiança da mãe. Rafael imaginava quanto apanharia de cinta – e se resistiria à vontade de chorar. No fundo Bernardo entendia o ponto de vista dos amigos. Nunca foi sua intenção arranjar problema para eles ou para si próprio. Queria dividir a emoção de encontrar em ET de verdade, por mais absurdo soasse aos ouvidos de quem escutasse. Adriano e Rafael puderam perceber e também compreender isso.
- De repente ele pode estar aqui perto. Vamos espiar – Sugeriu Adriano, tomando a direção do buraco.
A entrada no muro não era alta a ponto de permitir a passagem de uma pessoa ereta – mesmo sendo uma criança – todavia, era suficiente para quem não se importasse de engatinhar e sujar a palma das mãos e o joelho das calças.
Adriano entrou primeiro, seguido de Rafael e, por último, de Bernardo.
- Vai deixar a bicicleta lá fora?
- A noite dificilmente passa gente por esse trecho da calçada. – Disse Bernardo com um sorriso. – Depois vamos só dar uma espiada e vamos embora.

Pode ser difícil, aos olhos de muitos, tentar entender essa súbita mudança. Diferente dos adultos que cortam contato com conhecidos pelas coisas mais bobas, o trio não guarda magoas por muito tempo. Talvez seja o verdadeiro significado da amizade. A procura pelo ET, no entanto, prometia tudo menos ser uma tarefa fácil.


Continua na próxima semana...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Um Contador de História




Como nasce um contador de histórias? Do modo mais simples possível, contando fatos. Você não precisa quebrar a cabeça imaginando um cenário fantástico para sua história. Até algo simples como voltar da padaria, pode render um enredo e tanto.




Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - I Capítulo



Depois de comprar meia-dúzia de pãezinhos, Adriano voltava para casa. Já era um homenzinho, diziam os pais que já lhe confiavam pequenas tarefas, como limpar o jardim, lavar a louça ou dar banho no Sabão - o cãozinho vira-latas. Adriano gostava de ser prestativo, e sempre que podia ia a padaria. Era bom aquele gostinho de liberdade. Apesar da casa ficar cinco quarteirões da padaria e com frequência, ao voltar, sua mãe o esperava da janela, o menino não chiava.
No caminho, encontrou com os amigos Rafael e Bernardo. Não eram muito mais velhos que Adriano, mesmo assim os pais destes já deixavam que andassem sozinhos, desde que em áreas pré-determinadas - quadra de futebol, fliperama ou parque municipal.
- Ta a fim de ir até o parque? - Convidou Rafael segurando o skate.
- Vão jogar bola? - Perguntou Adriano.
- Melhor que isso. - Disse Bernardo animado, montado em sua bicicleta. - Vamos ver um "ET".
Adriano arregalou os olhos - Um ET de verdade?!
- Bem, não sabemos se é de verdade, vamos lá checar.
Adriano ainda parecia não acreditar.
- E como é que vocês sabem que tem um ET lá? 
Rafael respondeu com uma pergunta. - Se lembra daquela chuva de meteoros semana passada?
Adriano acessou o banco de dados da memória e se lembrou. Desde o comecinho do mês, canais de televisão vinham noticiando uma Chuva de Meteoros para o dia 14. De fato, na data em questão, noite clara, ocorreu o evento cósmico que foi possível acompanhar a olho nu.
- Lembro sim, mas o que tem isso a ver?
- Dizem que na mesma hora da Chuva de Meteoros, algo caiu lá no parque. - Narrava Bernardo, caprichando no ar de mistério. - Pensavam que podia ser um meteoro, mas não é.
- E como você sabe?
- Tem gente que diz enxergar uma luz. - Continuou Rafael. - Algo meio esverdeado vagando por entre as árvores. Dizem que costuma aparecer no fim de tarde.
Adriano não precisava checar as horas para saber que era tarde. O sol jogava um laranja aguado por todo horizonte e o ar já soprava um friozinho familiar. Em duas ou três horas, a noite cairia.
- Vocês estão pensando em ir ao parque a essa hora?
Rafael e Bernardo trocam olhares cumpliciosos de "sem dúvida".
- Mas e seus pais? Deixaram? 
- Não vamos demorar. - Disse Rafael, acrescentando. - Vamos dar uma olhada, se não virmos nada voltamos.
Mesmo a história toda parecendo só um pretexto para ficar mais tempo fora de casa, Adriano estava tentado. O problema era o saco de pães para o lanche que sua mãe mandou comprar. Ainda que não cronometrasse o tempo que o filho levava para ir e voltar da padaria, Adriano relutava em abusar da confiança da mãe.
- Vamos só dar uma olhada e voltamos?
- Isso. - Disseram ao mesmo tempo Rafael e Bernardo.
Adriano se convence. Se daria uma espiada rápida, não faria mal demorar além do habitual para chegar em casa. Qualquer coisa, pensou, diria que o caixa da padaria estava muito cheio.
E lá foram eles; Rafael em seu skate, Bernardo em sua bicicleta levando junto Adriano - que segurava o saco de pães. A emoção de talvez encontrar algo desconhecido, superavam a precaução. Atravessando o cruzamento na faixa de pedestres, o trio toma o caminho oposto ao bairro, tomando distância do tráfego de veículos, do buzinaço e o blábláblá. Quando Adriano olha para trás, para ter noção do quanto se afastaram, as casas estavam tão longe que só eram visíveis pequenos pontos luminosos. 


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Viram? Uma história pode ter emoção aproveitando fatos dos mais improváveis. Foi justamente assim que nasceu meu primeiro gibizinho. Um trabalho de escola para a 5ª série. Podia ser feito em grupo ou dupla. Meu amigo ficou responsável pela revisão e eu pela edição. A história girava em torna de um office-boy sonhador decidido a passar a perna no relógio.




Isso que vocês veem ai do lado esquerdo é uma relíquia de tempos imemoriais (risos). Feito em papel sulfite e grampeado, as frases foram redigidas em máquina de escrever. A imagem de um relógio de pêndulo é meramente ilustrativa, porque no gibi ele era um relógio despertador (como esse aqui).






Apesar de conter uns erros de português, esse trabalho nos fez ganhar um "A". Quem vê pode dizer que a professora foi boazinha em ter dado uma nota boa (boazinha até demais). Mas o objetivo desse projeto não foi reconhecer potenciais escritores/ ilustradores. Foi fazer algo que cada vez menos se nota: estimular a imaginação.
"Naqueles tempos", década de 90, as coisas eram mais simples, digamos assim. Computador
(quem tinha) era usado para se jogar joguinho e olhe lá. As escolas estimulavam a criatividade dos alunos. E os alunos (a maioria) se sentiam estimulados. Hoje meio que banalizamos a importância de exercitar a criatividade precoce.
Obs: Trabalho foi tão bem aceito que a professora duvidou que tivéssemos feito sozinhos.



Saber desenhar segue o mesmo conceito. Antigamente, meus desenhos não eram melhor que isso. Desenhar pessoas nunca foi minha especialidade. Um círculo, encima dum palito, com duas varetinhas como braços e pernas e tava pronto o personagem. Desenhar animais também era um martírio. Conseguia desenhar razoavelmente bem o corpo, mas braços/ mãos/ pernas e pés sem chance. Para superar essas limitações tive que usar a comum e velha arte de treino. E ainda estou a treinar. 







Meu amigo de fuço molhado Rex (mistura de Rask com vira-lata). Maluco como não tem igual.