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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - III Capítulo





A primeira coisa que o trio notou, logo ao passar pelo buraco no muro, foi uma sensação claustrofóbica angustiante. Era como estar dentro duma caixa de fósforos. Sentiam cheiro forte de mato e insetos zunindo a volta deles como abelhas cercando o mel.
- Pera, eu vou dar um jeito. - Bernardo meteu a mão no bolso na calça, tirando uma lanterna.
O pequeno facho de luz foi suficiente para lhes dar noção do ambiente que os cercava. Mesmo terrenos baldios eram mais bem cuidados Touceiras espessas de mato cresciam por toda parte, tão altas que mesmo esticando o braço não se alcançava o topo.
Ecoou-se sons de tapas. Bernardo iluminou o rosto de Adriano e mesmo sobre a pele morena eram visíveis às mordidas de mosquitos. 
- Ai. – Bernardo direcionou a luz da lanterna para o chão pedregoso, aos pés de Rafael. Usando calça preta, a cor parece viva, antes de Bernardo constatar que eram formigas.
Assim que percebeu, Rafael se apavorou. Jogou longe o skate e sem pensar arrancou a calça e a atirou no chão, onde os insetos, como granulados vivos, terminaram por reivindicar a posse do estranho objeto. Enquanto isso, o menino não parava de mandar, aos gritos, que Bernardo iluminasse suas pernas. Intermináveis cinco minutos se passaram até o menino parar de esbofetear as pernas nuas, e se acalmar.
- Que situação. – Reclamou Adriano, dando leves batidinhas no saco de pães para espantar os mosquitos.
- Tô ferrado, meus pais vão me matar. – Imaginou Rafael, olhando para o que um dia foi suas calças. Seu rosto está lívido e molhado. Fosse por causa do calor, do medo da punição dos pais ou choro, Bernardo não perguntou.
- Animo galera, a gente consegue.
A tentativa bem intencionada de Bernardo de manter o moral elevado parecia uma piada cruel. A sua frente havia dois garotos, um de rosto coberto de picadas de mosquito e outro sem calça. E ambos olhavam Bernardo como querendo dizer “é brincadeira?”.
- Meu skate. – Rafael encontrou o objeto de estimação, caído como um pedaço velho de madeira por entre o mato. Inteiro ou quase; uma das rodinhas estava faltando.
- Ouviram isso?
- O quê?
- Isso. – Bernardo se calou. Dali a pouco, todos escutam.
Adriano não soube dizer o que tinha ouvido, mas buscou uma explicação plausível.
- Na certa deve ser um rato.
- Ratinho barulhento.
- Tá, uma ratazana então.
Adriano podia passar a noite dando nomes de animais que não convenceria Bernardo. O som tinha uma singularidade que tornava impossível ser confundido com um animal; se parecia com voz humana. Estava distante, calculou o menino, dez metros no mínimo.
- Pode ser o ET.
- E dai, não temos como abrir caminho nesse mato.
Bernardo olhou para Rafael que imediatamente compreendeu a intenção do amigo. E como um cão protegendo o osso, guardou o skate debaixo do braço. Bernardo não desistiu. Procurou, xeretou, e achou uma barra de ferro encostada no muro.
- O.K – Disse, empunhando com as duas mãos o objeto de cerca de um metro. – podemos ir.
Usando a barra e um pouco de força bruta, Bernardo ia "deitando" as touceiras, erguendo, no processo, uma nuvem de mosquitos agitados. Rafael vinha logo atrás, ainda queixando-se pela perda da calça. Adriano, cobrindo a retaguarda, meio que desempenhava o papel de sentinela, atento a qualquer coisa que visse ou ouvisse. A despeito dos infortúnios sofridos, a noite era linda.
Como lâmpadas de natal, um mar de estrelas enfeitava os céus. De brilho intenso ou apagado, solitárias ou em grupos, a posição peculiar que ocupavam criava desenhos que os antigos e modernos astrônomos conheciam pelo nome de constelações. Adriano possuía conhecimento raso sobre assuntos relacionados a espaço. Se perguntado, sabia o nome dos oito planetas do sistema solar, o nome da galáxia na qual se encontrava o sistema solar, e mais uma ou duas coisas. Rafael mostrava igual conhecimento limitado. Certa vez, durante uma prova oral, deu o nome de todos os planetas... De um jogo de RPG.
Bernardo demonstrava interesse um pouco maior pelo assunto, inclusive ufologia. Sendo o universo tão vasto era inconcebível a ideia da raça humana ser a única espécie evoluída. Bernardo tinha um espirito desbravador, a palavra impossível simplesmente não era possível de existir.



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Olhando os céus, Adriano estranhou uma mancha preta pairando no ar sobre a cabeça de Rafael. Num movimento brusco de Bernardo lutando para aplainar o mato a frente, a coisa some.
- Não se mexe Rafael. – Falou com calma, tentando não provocar pânico. – Tem uma aranha grudada nas suas costas.
Antes de Adriano pensar em como removeria o aracnídeo, Rafael arranca pelo avesso a própria camiseta, a atirando por sobre o mato. Durante um tempo que ninguém saberia dizer a duração, o trio permaneceu imóvel, olhando na direção onde a camiseta fora lançada. Vendo-o ofegante, só de tênis e cueca amarela, Adriano não pode evitar achar a cena engraçada – mas evitou rir.
O calvário chega ao fim. O mato-alto se dissipa, substituído por árvores. Bernardo iluminou a frente, enxergando um emaranhado de teias que se sobrepunham. Cutucou-as com a ponta da barra de ferro. Nenhuma aranha ou inseto aparece. Constatou que as teias foram abandonadas. Com cautela foi dividindo os fios de seda, terminando por revelar um caminho natural por entre as árvores.
Escutaram o estranho ruído com mais nitidez. A recompensa por tantos contratempos estava próximo. Bernardo imagina que aparência o extraterrestre teria. Seria como dos filmes hollywoodianos, corpo franzino e cabeça volumosa? Já Adriano pensa se o alienígena possuía boa audição. Com a barulheira que faziam, o ET teria tempo de sobra para fugir. Para Rafael, cada passo o levava crer estar indo de encontro um cadáver.
- Argh, cheiro ruim. Esse ET deve ser porco pra feder tanto.
- Pode ser um sistema defensível, como fazem os gambás.
- Tá dizendo que ele está com medo da gente?
- Ele nunca deve ter tido contato com seres humanos. Não sabe o que esperar.
Rafael virou-se para Adriano, gesticulando com as mãos a indicar que Bernardo estaria louco.
A cada novo passo o mau cheiro crescia. Algo semelhante um corpo queimando. Nem Bernardo achava mais que pudesse ser um sistema biológico de defesa. Quando pensou desistir, algo o surpreende; por entre a cortina de galhos e folhas, enxergou um tênue contorno esverdeado. Apagou a luz da lanterna e gesticulou com a mesma, indicando para Adriano e Rafael se aproximarem em silêncio.
Os meninos se posicionam cada um de um lado de Bernardo. Não eram bons em calcular distância, ainda mais naquele breu, mas arriscaram uns cinco metros entre eles e o ET. Pela postura arqueada, devia estar agachado e mexendo em algo. Então, como um capitão usando linguagem de sinais, Bernardo indica para avançarem.

Conforme andavam, o tênue contorno verde se evidenciava assim como o mau-cheiro. Não deram bola. Provavelmente o ET se alimentava de algum bicho morto que encontrou. Se escondendo atrás de um velho tronco caído, o trio espia por entre as frestas. O que veem os faz ter ânsia de vômito.




Continua...

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