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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - VI Capítulo



A primeira coisa em que Adriano pensou foi fugir. Mas esbarrou na questão “fugir para onde?”. Já estava em casa, o lugar mais seguro que conhecia. Pensou, então, ligar para a polícia. Isso gerou outro problema: o que diria? “tem uma criatura estranha em meu quarto?” O policial o mandaria a merda e ainda lhe daria esporro por usar o número de emergência para brincadeiras. Podia contatar a mãe, mas desistiu ao lembrar, amargurado, que havia deixado o celular sobre a cômoda no quarto.
Ficando sem opções, o menino pensa em ele próprio tirar aquela coisa de seu quarto. Aos sons de latidos animados de Sabão, armou-se de toda coragem e entrou no quarto, os punhos fechados e uma expressão de absoluto pavor. Quando a criatura estendeu-lhe a mão, Adriano deu um pulo para trás e desembestou porta afora, indo refugiar-se no banheiro.
Tremendo no escuro, dentro do Box, a atenção de Adriano está toda voltada para a fenda do pé da porta, onde viu uma luz brilhante azulada passar. A criatura havia deixado seu quarto.
Simplesmente não conseguia pensar numa solução. Estava sozinho, morrendo de medo, bem debaixo duma goteira do chuveiro. Ouvia os latidos alegres de Sabão, imaginando que por ser filhote ele ainda não era capaz de associar o desconhecido ao perigo. “Que essa coisa quer aqui?”, “Porque comigo?”, “Que devo fazer?”, se repetiam ininterruptamente, sem dar conforto ou solução. Era uma tortura não saber o que fazer e continuar com aquelas perguntas. “Que essa coisa quer aqui?”, “Porque comigo?”, “Que devo fazer?”...
Estranhamente, Adriano começa a enxergar a imagem de sua mãe. De ar zangado, a mesma mexia os lábios, falando algo, porém não saia som. Ao redor dela as frases “Que essa coisa quer aqui?”, “Porque comigo?”, “Que devo fazer?” multiplicavam-se desordenadamente, avolumando-se e embaralhando-se.
Adriano lutava para manter-se atento a imagem autoritária da mãe, ainda falando sem produzir som. O mar de questões cada vez mais crescia e avançava. Quando enxergou sua mãe brandindo um rolo de macarrão, o menino perfurou através das marés de letras e sílabas, até visualizar a expressão nervosa de sua mãe.



“Você não tem problema, você os cria”


Imediatamente todas as dúvidas se dissiparam, deixando Adriano sozinho. Sua mãe tinha o hábito de dizer que os problemas são fruto do próprio receio em tomar decisões. Não mais refém disso, Adriano, com a cabeça ensopada, levantou-se e destrancou a porta. O corredor está vazio. Pelo som dos latidos alegres de Sabão, concluiu que estavam na cozinha.
Não havia luz exceto a estranha luminosidade que era emitida pela criatura. Adriano parou na entrada da cozinha e apertou o interruptor. Uma luz amarela mostarda clareia o ambiente.
O cachorrinho Sabão abanava freneticamente o rabo. Não olhava Adriano e sim uma menina parada em pé entre a pia e a geladeira. Não era um fantasma, apesar da superfície do corpo da garota desprender pequenas emissões de luz azul-esbranquiçada. Vestia uma roupa que parecia algo saído de um filme de ficção científica sobre o espaço; usava uma espécie de macacão prateado, com botas e ombreiras pretas. Mas o que despertou a atenção de Adriano foi o tom de pele do rosto e mãos; não era branca, como de seus amigos, nem morena como a sua. Era azul escuro, igual o mar. Os lábios, sobrancelhas, cabelo e olhos, era branco platinado.
Do cãozinho Sabão, a menina olhou para Adriano e sorriu.
- Eeeh, hmm – Murmurou, pensando no que dizer. – O-Oi. – Gaguejou. – De onde você é? – Esperou uma resposta, mas a menina nada diz. – Claro. – Disse dando um tapinha na própria testa. – Se você veio de outro planeta não deve saber falar minha língua. – Concluiu, tentando controlar o nervosismo. Não sentia que corria perigo, mas aquela situação o deixava desconfortável. 
Não tardou para Adriano perceber que a menina estava mais interessada com relação aos objetos da cozinha. Pegou com as duas mãos um dos pãezinhos que Adriano trouxera, e o examinou. Encostou o nariz para sentir o cheiro, apalpou-o algumas vezes. Tornou a olhar Adriano e lhe estendeu o pão.
- A-Ah, obrigado, tô sem fome. – Adriano arriscou-se a se aproximar. – O nome disso é “pãozinho”. – Disse apontando para o que a menina tinha nas mãos. – Serve pra comer.
A menina olhou para o objeto que segurava, tornando a oferecê-lo a Adriano. – Obrigado. – Agradeceu Adriano, aceitando o “presente”. Achou que melhor não contrariá-la. Pegando o pãozinho, Adriano o parte em duas metades dando uma delas ao agitado Sabão. – Viu, é de comer.

A menina acompanha com os olhos o cãozinho ir comer o pedaço de pão debaixo da mesa, o rabo abanando feito um espanador. Pareceu compreender a associação do pão como comida porque pegou outro, dividiu-o em duas metades e ofereceu uma delas a Adriano, que sem-jeito aceita.
- Que foi? – Adriano olhou a menina cujos olhos ficaram arregalados de susto. Ela olhava direto para o machucado em seu braço, resultado de quando tentou fugir dos ETs reptilianos. – Não é grave. – Tranquilizou. – Só vou ter de passar merthiolate e
Adriano não concluiu a frase. A menina agarrou seu braço, expondo o corte. Mesmo o menino dizendo que não era nada, não escondeu a surpresa de ver o tamanho do corte. Mais ou menos da metade do comprimento duma régua.

Com os indicador e médio da mão direita, a menina passa os dedos sobre a ferida. Adriano teve a sensação que um zíper ia se fechando sobre o machucado. Em segundos, o corte deixa de existir.
- Uau. – Exclamou maravilhado. – Que poder daora!!
A menina seguiu explorando tudo que via. Pegou o copo que Adriano havia deixado sobre a pia, e este se quebrou em suas mãos. Aproximou-se duma tomada próxima dum micro-ondas. Ia enfiar o dedo quando Adriano a puxou pelo outro braço. Precisava tirá-la da cozinha, assim como Sabão, para que não se machucassem com os cacos de vidro do copo.
Sabão foi fácil convencer. Só precisou dar outro pedaço de pãozinho e lá se foi o cachorrinho para o quarto do menino. Já fora da cozinha, Adriano leva a menina até a sala. Ali não havia objetos quebráveis, pelo menos não que pudesse machucá-la. Enquanto ela fica encantada, examinando a cortina, Adriano corre para colher os cacos de vidro. 
Limpando tudo voltou correndo pra sala, onde a menina continuava examinando minuciosamente o tecido da cortina, admirando o desenho de flores margarida. Pensando no que dizer, ouviu o som inconfundível de molho de chaves e portas se abrindo: sua mãe chegara.
- Absurdo, que absurdo. - Resmungava ela, passando frente a sala e detendo-se quando viu Adriano, seu filho, em companhia da estranha menina. Ela não gritou, mas algo em sua fisionomia dizia a Adriano para preparar-se para enfrentar um tsunami.

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