link href ='http://fonts.googleapis.com/css?family= THE MILLION MILE MAN' real='stylesheet' type='text/ css'/ Turma do Fundo-do-Mar: Fevereiro 2015 oeydown='return checartecla(event)' >

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - VIII Capítulo




Quando o táxi parou enfrente a casa de número 30, Rua do Peregrino, esperavam-no três pessoas; uma mulher e duas crianças. A mulher sentou-se no banco do passageiro, ao lado do motorista. Séria, apenas tratou de informar qual o destino, a delegacia da cidade. O taxista ficou um pouco preocupado, mas não tentou puxar assunto – o ar carrancudo da mulher dizia o óbvio: nada de papo.
As duas crianças – um menino e uma menina – sentaram-se no banco detrás. O menino aparentava nervosismo. Suas roupas estão amarrotadas e sujas, e a pele morena do rosto cheia de carocinhos que o taxista sabia ser decorrente de picadas de mosquitos, além de pequenos cortes.
Mas é a colega do menino quem atrai os olhares do taxista. A única a estar em clima descontraído, ela, em nada, assemelhava-se a mulher ou ao menino. Nem em noites claras o céu exibia um tom azul tão intenso como a cor da pele do rosto daquela menina. Os longos cabelos – bem como sobrancelhas, olhos e lábios – eram de uma cor “prateada” forte, combinando com a roupa similar ao vistos naqueles filmes espaciais. No geral, achou a “fantasia” espalhafatosa e um tanto infantil.
Para Adriano, os pensamentos do taxista com relação a aquela “pessoa”, não importavam. Ninguém dentro daquele carro podia imaginar a sucessão de eventos que testemunhou na última hora, tão pouco compreendê-las. Do seu lado direito há uma ET que, aparentemente, não possuía dom da fala. Tudo a fascina, da estrutura interna do carro a observar sua imagem refletida no vidro.
A outra personagem excêntrica da noite é sua mãe, que havia decidido do nada irem à delegacia. Para quê ou porque, ela não disse.
Como grãos de milho pipocando na panela quente, a cabeça de Adriano estourava com teorias absurdas. Sua mãe o estaria levando para ser interrogado e posteriormente confrontar as versões da história? Poderia ela conhecer a verdadeira identidade de “Lúcia”? Como? Será que aparições de ET eram de conhecimento público geral, e só ele não sabia? Poderia a delegacia local atuar em parceria com autoridades governamentais no acobertamento de informações referentes à presença de seres extraterrestres vivendo na Terra? Se sim, que fariam com ele? O colocariam a par dos fatos ou o submeteriam a procedimento para esquecer tudo que viu? E sua mãe? Compactuaria com isso?



-----------------------------------------------------------------------------------------



Dobrando a esquina seguinte, o táxi entra na Alameda Coqueiral, rua da delegacia, seguindo por uma pista de mão única tranquila. Ao pararem, Adriano e “Lúcia” são os primeiros a descer.      Mantinham-se costas com costas, “Lúcia” fascinada com a luz do poste de luz, Adriano olhando fixamente para a entrada da delegacia.
- Venham. – Disse Firmina apressando o passo.
A delegacia não aparenta realizar catalogações de aparições de ET. Ao entrar via-se uma portinhola que dava acesso um corredor comprido cheio de portas. Do lado um balcão semicircular, onde um grupo de quatro pessoas se concentra. Correndo os olhos pelos presentes, Adriano vê uma mulher miúda de ombros caídos e expressão desolada; era Maria do Carmo.
Do Carmo lhe era como uma segunda mãe – tendo várias vezes buscado Adriano na pré-escola, ou o levado a alguma consulta. Tal como Firmina, “Do Carmo” (como gostava de chama-la) trabalhava de doméstica, complementando a renda fazendo doces por encomenda. A mulher que costumava ser o retrato vivo da alegria, agora parecia uma alma penada.
- Me esperem ali. – Firmina indicou uma fileira de bancos para o filho e "Lúcia", indo então falar com Maria do Carmo.
Se Adriano não entendia, ficou sem entender mais quando viu Rafael sair por uma porta, na companhia dos pais e de um homem baixotinho.
Rafael notou a presença de Adriano. Olhou dele para “Lúcia” e dela novamente para o amigo. Gesticulou com as mãos, tentando contar algo. Adriano faz o mesmo. A conversa por sinais não flui como esperado e os dois acabam tendo que parar – parecia que faziam micagem. Com a ida do amigo só restou a Adriano imaginar o motivo de ele ter estado ali. Teria contado todo o ocorrido no parque municipal?
Firmina aborda o homem baixotinho numa conversa bem breve. O homem olha para Adriano e “Lúcia” e gesticula com a mão, pedindo que viessem.
- Sou o delegado Felipe bom Coelho. – Apresentou-se o homem com bigodão de taturana. – Sua mãe contou-me que você e sua colega foram atacados. – Ele olhou “Lúcia” e prosseguiu. Não questionou o porquê de a menina estar daquele jeito. – Pode nos dar seu depoimento?
- Sim. – Adriano respondeu com o ânimo de quem encararia uma prova oral.
- Posso acompanha-los? – Pediu Firmina.
- Eu preferiria que não. Ele pode se sentir desconfortável ao falar na presença da mãe.
O delegado Felipe bom Coelho leva as duas crianças a sua sala, indicando gentilmente os assentos. A sala era pequena, sem nada que merecesse destaque. Adriano e “Lúcia” sentam-se diante uma mesa retangular, sobre a qual havia uma fina pasta azul. Lucia quis pegá-la, Adriano não deixou. O delegado fechou a porta atrás deles e os contornou, sentando-se atrás da mesa, de modo a ficar bem de frente a eles.
- Normalmente ouviria um por vez, mas a senhora sua mãe me disse que sua coleguinha não fala.
- Pois é. – Concordou Adriano, num sorriso forçado, olhando “Lúcia” que observava, hipnotizada, as lentas pás giratórias do ventilador de teto.
Felipe cruzou as mãos gordinhas sobre a mesa, dando início o interrogatório.
- Conte-me como o ataque se deu.
- Aconteceu quando voltava da padaria.
- Como ele o abordou?
- Ele meio que surgiu do nada, vindo pra cima.
- Estava armado?
- Não.
- Como era a aparência dele?
Adriano pensou um pouco – um monstro.
- Sim, sim, compreendo, mas quero que seja mais especifico. Viu o rosto dele?
- Sim.
O delegado se animou.
- Com o que se parecia?
Adriano voltou a se repetir – um monstro.
- Sim, sim, mas quero saber os detalhes faciais.
Adriano pensou.
- Ele tinha o rosto como o de um réptil.
O delegado torceu o bigodão de taturana.
- Um réptil?
- É.
- Hm, curioso, isso foge do modus operante tradicional. – Pensava consigo em voz alta. – Será que ele trocou o capacete por uma máscara?
Adriano não entendeu. “Trocou o capacete por uma máscara”?
- Desculpe senhor, ele não usava capacete nem nada.
O delegado se sobressaltou. – Ele os atacou pelado!?
- Bem, sim.
- Que coisa – Felipe recostou-se, coçando a gorda papada. – É totalmente fora do padrão de ação dele. Colhemos um total de trinta e nove depoimentos de vítimas, e todos descreverem o suspeito abordando-as vestido. Será que seu libido desenfreado o compeliu a táticas mais agressivas? Deus, que problema...
Adriano não entendia absolutamente nada. Quem era “ele” que o delegado supunha o menino tinha encontrado?
- Perdão, senhor, estou um tanto confuso.
- É natural. – Confortou Felipe. – Vocês passaram por uma experiência aterrorizante e pela graça de Deus escaparam ilesos. Tenha certeza que logo esse maníaco será preso.
Adriano sentiu que devia perguntar. – Maníaco?
- Sim, o maníaco do capacete. – Nisso Felipe pegou a pasta e tirou um papel. – Este é o retrato falado.
O desenho mostra um homem de compleição mediana usando um capacete preto de visor escuro.
Foi então que Adriano começou a juntar as partes do quebra-cabeça. Não é que sua mãe desconfiasse da história. O tempo todo ela pensava que ele e “Lúcia” tinham sido atacados pelo tal maníaco do capacete. Ainda bem que pelo menos isso foi esclarecido, Adriana estava prestes a contar tudo o que sabia sobre ET.
O delegado, Adriano e Lúcia deixam a sala. Firmina os esperava.
- Então? – Perguntou.
- Tivemos um papo gostoso. – Disse o delegado dando tapinhas camaradas no ombro de Adriano. – Não se preocupe senhora, dou minha palavra que esse maníaco será achado. E vamos localizar os pais dessa menininha linda.
Adriano não gostou do que ouviu. – Pera, ela... A Lúcia, vai ficar aqui?
- É claro. – Disse Firmina. – A policia vai se encarregar de contatar os pais dela.
- Mas mãe...
- Nada de “mas”. – Decretou Firmina. Ela se aproximou de “Lúcia” e lhe beijou a testa. – Tchau querida, cuide-se.