Preconceito



Os olhos cor de asfalto transmitiam um sentimento de mais absoluta soberba. Como um soldado em marcha, andava a passos firmes olhando fixo o caminho à frente. Vez outra, porém, precisava olhar o chão e desviar de bugigangas acomodadas de forma improvisada sobre lonas plásticas, cujos donos gritavam a plenos pulmões, fazendo propaganda. Odiava camelôs. Privatizavam zonas públicas de calçadas, no centro de São Paulo, para a venda de produtos baratos de procedência questionável. Um verdadeiro mercado de ilegalidades a céu-aberto. Era um saco.

Nas últimas horas do dia 24 de dezembro, o movimento na Rua 25 de Março era considerável. Evitar esbarrões com pessoas carregadas de embrulhos e sacolas é um verdadeiro teste para os nervos. E o som? Gritaria, pessoas no celular, ambulantes. Pior que um bando de periquitos. Era preciso se segurar e não mandar um vá se foder. Breno não era boca-suja, embora a tentação lhe fizesse coçar a língua. Receberia o titulo de jovem mais rico do Brasil, se superioridade e desprezo valessem algum tostão. 

Detestava tudo na 25 de Março; o mau-cheiro, as pessoas, o mau-cheiro, o barulho, o mau-cheiro. Deus, como aquele lugar fedia. Uma mistura rançosa de urina, suor e poluição.

Não se considerava preconceituoso, embora o fosse. Odiava gente pobre, o mau gosto que maioria tinha para o que achavam bom; músicas de letras obscenas e enaltecimento a bandidagem, roupas do tipo que só mulheres vulgares usariam. Filmes piratas, brinquedos sem garantia, falsificações de bolsas, tudo sendo vendido com a conivência da impunidade. Breno olhava tudo aquilo, pensativo. Se pudesse, mandaria prender a todos.




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