O Natal de cada um - Família Miller (Parte 1)

A chuva forte alcança Breno a um quarteirão do prédio em que morava. Cruzou apressado a portaria, desejando um “boa-noite” austero ao porteiro plantonista. Entrou no elevador e apertou o 8° andar. Olhou-se no espelho da cabine. Escorria água dos cabelos e da ponta do queixo. Não se incomodou. Não pretendia sair àquela noite.

Em casa tudo quieto. Nem sinal de viva alma. Nada com temas natalinos enfeitava os moveis. Há sete anos, as comemorações natalinas foram riscadas dos costumes da família. Talvez considerassem a data uma jogada de marketing do governo para coleta de dinheiro na compra de presentes. Talvez a morte trágica do pai, acometido de tumor no pulmão, justo as vésperas do natal de 2004, dali em diante, tenha matado para todo sempre as celebrações. Explicaria porque a mãe de Breno nunca mais tem passado a noite de natal em casa. Breno não a censurava. Havia mesmo conversado sobre venderem o apartamento e se mudarem. Não convinha continuarem morando num lugar onde residiam tantas lembranças.

Quase todos os cômodos estão apagados, com exceção do corredor, de onde vinha um som eletrônico. O irmão mais novo de Breno está no quarto, sentando na cama, jogando o game boy que ganhara de presente de aniversário da mãe. Viu Breno passar, deu pause no jogo, pulou da cama e saiu atrás dele.

- Mano, mano... – O menino chamava feliz. – Que bom que che...

Mas Breno não estava a fim de papo, e bateu a porta do quarto na cara do irmão caçula. O menino chutou o pé da porta, numa atitude puramente brincalhona, antes de dar o recado:

- Fomos convidados pra passar o natal na casa dos Franchesco. Mamãe foi pra lá e pediu para que fossemos assim que você chegasse. Vê se se arruma logo! – Dado o recado, o menino voltou para o quarto.

Breno soltou um palavrão.

Detestava os Franchesco, e só a pronuncia do sobrenome daquela família italiana bastava para provocar-lhe mal-estar. Se tivesse sabido onde a mãe passaria o natal, Breno inventaria que estava doente.

Com ânimo de quem teria de limpar esgotos, Breno se apronta para uma noite que não prometia expectativa de diversão. Tirou as roupas molhadas, abriu o armário e tirou do cabide a primeira roupa que viu. Pegou o celular e telefonou para o ponto de táxi que prestava serviços ao condomínio. Sua única chance de escapar ao ingrato compromisso dependia de a linha continuar chamando.

- Ponto de Taxi, Bela Frondosa, boa-noite.

Breno amaldiçoou em pensamento o taxista.




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