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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Um dia na Vida de um Cretoxyrhina

Um "drama" do Cretáceo tardio; um Cretoxyrhina faz uma má investida, o que por sua vez permite a fuga de dois Mosassauros. Enquanto coexistiram, a relação entre ambos variou com hora um sendo a presa, hora predador. 



































Seu nome deriva de duas palavras; creto (Cretáceo) e Oxyrhina (Nariz Pontudo). Do seu período (fase Cenomoniano, início do Cretáceo superior, para o Campaniano) foi o maior peixe predador, crescendo para chegar a incríveis 7 metros e peso de uma tonelada e meia (igualando-se ao moderno tubarão-branco, e superando em 2 a 3 metros seus contemporâneos, SqualicoraxCardabiodon). Embora não fossem nenhuma novidade nos mares, a aparência de Cretoxyrhina indicava a evolução dos tubarões que assumiriam a forma clássica com que conhecemos o grupo. 
Cretoxyrhina tinha o tamanho, a força e agressividade suficientes para ir à caça de qualquer animal do ambiente marinho e "acima". Aves não voadoras como Hesperornis seriam o equivalente a um hambúrguer. Mesmo os ossudos Pterossauros que por infelicidade caíssem no mar, também seriam consumidos. Outros peixes predadores como Xiphactinus, que apresentavam tamanho semelhante ao tubarão, não escapavam de sua fome. Tartarugas como o Protostega e Archelon também integravam o cardápio, embora o último plenamente crescido ostentasse uma blindagem que poriam à prova a eficácia dos dentes do tubarão ginsu. Até os senhores dos oceanos da época, os Mosassauros, não estavam 100% a salvo do apetite voraz, principalmente os indivíduos jovens.

Concepção: Enquanto a história ganhava rumo, Cretoxyrhina não estava pensado para aparecer em nenhuma cena. Inclusive, pensei em utilizar um Helicoprion gigante.
Um dos poucos que não foram feitos muitos rascunhos. Para ser honesto, usei de molde Duda, o Tubarão Branco e personagem de Turma do Fundo-do-Mar. Entre as diferenças estão manchas nas extremidades de suas nadadeiras, além de uma fenda em sua cauda. Tem o tamanho máximo que sua contraparte verdadeira (sete metros). 

sábado, 31 de outubro de 2015

Um Dia na Vida de um Hybodus

Hybodus foi um predador de segundo escalão, muito provavelmente precisaria vigiar a retaguarda nos mares com grandes repteis marinhos.



Dentre todas as espécies de tubarões retratadas nos livros, Hybodus é o campeão em termos de existência. Sua linhagem é conhecida desde o Changhsingiano - período final do Permiano. Resistiu a onda de extinção que vitimou 90% da vida animal da época, espalhando-se pelos oceanos da Terra, assumindo uma posição de predador oportunista. Atravessou todo Triássico e mais o Jurássico, chegando ao Cretáceo, auge Era Mesozoica em termos de diversidade. Nem toda capacidade adaptativa aprimorada em milhões de anos, bastou para Hybodus continuar seu caminho, e a espécie foi extinta pouco antes do fim do Cretáceo (o porque disso ainda é tema de debate).

Hybodus - Primeira Versão
Concepção: Segunda espécie criada, Hybodus quase chega a emparelhar com Juca em termos de versões. Em sua primeira aparição, Hybodus tinha coloração similar a de Sarcoprion. Essa versão apresentava incorretamente um único espigão, ainda por cima na parte detrás da primeira nadadeira dorsal. Fazendo ponta em uma única cena, na posterior revisão, Spike (nome do personagem) aparece competindo peixes com um grande espécime de Sarcoprion, acabando por fugir em desespero de um Pliossauro.







Hybodus - Segunda Versão
Hybodus, Segunda Versão: A nova versão é vista na capa do primeiro livro. De preto sua cor mudou para amarelo, com os espigões bem visíveis a frente de suas nadadeiras e encima dos olhos. Mesmo com correções, ainda apresenta uma fisionomia incorreta, o formato da cauda está mais próxima dos tubarões modernos, sendo na verdade longa.

A Terceira e atual Versão, trás um amarelo menos vivo e mais harmonioso, com os olhos mudando de preto para a mesma cor do corpo.









Hybodus - Quarta Versão

Hybodus, Quarta Versão: presente nos próximos livros, é a mais próxima da aparência real do animal. Depois do preto e amarelo o verde escuro deu cor ao personagem, com um cinza suave colorindo ventre e espigões. Spike será o protagonista no terceiro livro, em que precisará enfrentar o Senhor dos Mares, Ivã o Terrível (Mosassauro visto acima).


Construindo um Tubarão


A anatomia geral dos tubarões segue um padrão único, com corpos feitos para velocidade. Pense num objeto aerodinâmico como um torpedo. Pense em quatro triângulos - um sobre as costas, outro para natação e dois na extremidade oposta a dos triângulos dorsal e peitoral (formarão a cauda). Alguns retoques transformarão as formas geométricas em nadadeiras dorsal, peitoral e caudal.






Eu amo tubarões-martelo. Sua aparência exótica pode fazer dele um membro perdido do grupo de tubarões pré-históricos, tanto que até pensei em inseri-los nos livros. Mas mesmo as histórias usando animais de várias épocas, a temática usa como pano de fundo a Era Mesozoica. Os tubarões-martelo só entram nos registros fósseis 20 milhões de anos atrás, período Mioceno, muito tempo depois do fim da Era Mesozoico. Apesar disso, eles estarão presentes no livro do Megalodonte e em futuras edições de Turma do Fundo-do-Mar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Um Dia na Vida de um Sarcoprion

Permiano: um invocado Sarcoprion incomodado com a curiosidade de um Dimetrodon.


Segunda espécie de tubarão pré-histórico em que pensei retratar, depois do Stethacanthus. Na primeira versão do primeiro livro, Sarcoprion aparece apenas em uma página. Na subsequente reformulação, sua participação é estendida para um momento de caçador, disputando a caça com Juca, culminando numa luta. Essa interação tem um pequeno fundo científico, no que diz respeito a provável causa de sua extinção, período Triássico, quando novas formas de vida aquática (ictiossauros) se mostraram predadores mais hábeis, empurrando esse tubarão para extinção.
Contrário a seu primo Helicoprion, que devia predar organismos de reações lentas (como amonites), a anatomia da boca (e resto do corpo) do Sarcoprion permitiu ir a caça de presas igualmente ligeiras, como peixes e lulas. Seu tamanho máximo foi estimado em seis metros. O personagem visto no primeiro livro (ainda sem nome) possui mesmo tamanho de Juca e Hélio (três metros). Um espécime maior é visto no segundo volume, porém trata-se de outro tubarão sem conexão.

Sarcoprion - 1 Versão
Concepção: Sarcoprion não exigiu mais que um rascunho. Enquanto testava que cores dar a cada personagem, sua primeira versão ficou preta com ventre cinza. Também na sua versão inicial não possuía detalhe em sua boca, e o número de dentes era maior. Em ambas as versões, é o único tubarão cujas brânquias são visíveis.

domingo, 5 de julho de 2015

Uma Aventura de 100 Milhões de Anos II

Um pouquinho de paciência, Juca. Seja qual for o problema, eu sei que você é capaz de tirar de letra. Antes de abordar o tema desse post, é preciso que eu dê alguns esclarecimentos. A ausência durante quatro meses deve-se exclusivamente por motivos de força maior, que serviram, em partes, para dar inspiração em novos projetos. Com a conclusão do primeiro volume, a ideia era focar na revisão do primeiro trabalho, além de terminar o segundo volume. Um problema quando você tem a história pronta na cabeça, mas pouco tempo para colocá-la no papel. Ainda queria explorar mais o mundo marinho pré-histórico, mas sem focar-me tanto em retratar a vida como num documentário. Aproveitando esse mês de relativa paz, criei essa nova história para Juca, aprofundando sua interação com outros seres. Quando tudo o que queria era deitar a cabeça e fechar os olhos, um problema bate-lhe a porta da toca. Enquanto muitos simplesmente mostrariam indiferença, Juca se preocupa o suficiente para ajudar. Julgando-se capaz de solucionar o caso em pouco tempo, acaba rodando boa parte do mar, deparando-se com criaturas pouco amistosas. Mais que uma história infantil para crianças pequenas, aborda uma questão comum em nossa sociedade, abrir mão do que queremos fazer em prol de ajudar o próximo.  


Além dessa, a edição trás uma historinha extra, estrelada pelo crocodilo-marinho Metriorhychus (ainda sem nome). Em "Cor", Numa bem humorada linguagem não verbal, o simpático réptil cruza com outros animais, todos conhecidos, mas estranhamente diferentes.

Personagens


Juca foi o primeiro e único personagem com nome próprio, visto no primeiro livro. No segundo há a inclusão de mais quatro personagens.

Hélio: Tubarão da espécie Helicoprion. Amigo de Juca.
Saura: fêmea de Ictiossauro que aparece no fim do primeiro livro. Uma amiga e possível interesse amoroso de Juca.
Laurásia e Nena: as irmãzinhas de Saura e o estopim para toda historinha/ confusão. Embora se pareçam, elas não são gêmeas (Laurásia é facilmente reconhecida por ter uma mancha branca na ponta de sua barbatana dorsal, além de ser ligeiramente maior que Nena).


Animais Retratados:

Ictiossauro
Helicoprion
Cladoselanche
Bandringa
Aspidorhynchus
Belemnites


O segundo livro trás quatro novas espécies de tubarões. Como hoje, acredito que os tubarões eram abundantes nos mares mesozoicos, não sendo predadores de topo até mais ou menos a entrada do Cretáceo, quando alguns notáveis espécimes surgiram e cresceram e ponto de competir com grupos de repteis marinhos gigantes. Tubarões pré-histórico despertam tanta atenção justamente por sua aparência exótica (algo que a natureza produziu uma vez e não mais repetiu). Apesar de que espécies modernas tenham uma ampla gama de características, os Sharks pré-histórico estão numa classe a parte.

Helicoprion: estranha espécie com dentes em espiral, semelhante a Sarcoprion. 

Cladoselance: pequena e antiguíssima espécie de tubarão, seu corpo já apresentava a forma clássica de alguns modernos tubarões. Como o Hybodus, tinha duas barbatanas dorsais com espinhos que deviam auxiliá-lo na natação, aumentando sua velocidade.
Cretoxyrhina: por vezes também chamado de "Tubarão Ginsu" (em razão do formato de seus dentes) foi um enorme tubarão de porte a rivalizar com o Carcharodon carcharias (Tubarão-Branco). Um grande e mau-humorado Cretoxyrhina acaba cruzando o caminho de Juca que passou momentos "tensos".
Bandringa: estranha espécie de comprido focinho que terminava em forma de colher, lembrava muito um peixe-serra sem dentes. Inconscientemente Juca acaba despertando a atenção de uma jovem Bandringa a quem custou a despistar. 



Ao contrário de peixes ósseos, o corpo dos tubarões é feito de cartilagem, material que não fossiliza bem. A menos que o animal afunde no leito do mar e seja soterrado, as chances de preservação são minímas. É a razão pela qual o material fóssil da maioria de tubarões pré-histórico vem principalmente de dentes, vez outra vértebras e, muito raramente, de corpos. A espécie a que pertence Hélio, o Helicoprion, tem um aspecto que variou enormemente ao longo dos anos. Conhecido pelo conjunto espiralado de dentes, a aparência como um todo foi muito debatida, tendo algumas já sido descartadas. Imaginou-se onde os dentes teriam ficado, tendo em alguns casos ficado nas costas, como defesa. Atualmente, a aparência mais próxima da realidade são as reconstruções de baixo (desenho acima) sendo os espécimes do topo antigas versões.


Curiosidades



  • Assim como o primeiro trio de tubarões, o novo time tem em comum o fato de terem vivido em períodos diferentes. Helicoprion viveu do Permiano ao início do Triássico superior. Cladoselanche nadava nos mares do Devoniano, Bandringa viveu no Carbonífero. Vale destacar, inclusive, que o mesmo não vivia no mar, mas em rios e pântanos de água doce. Por último, Cretoxyrhina aterrorizava os mares do Cretáceo, sendo um dos predadores alfa, competindo com enormes Mosassauros e Pliossauros.
  • Laurásia e Nena são os nomes de dois antigos supercontinentes. Laurásia existiu entre 300 e 200 milhões de anos, juntamente com Gondwana. Localizado bem ao norte, sua massa constituía os atuais continentes da América do Norte, Europa e Norte da China. Já Nena foi um supercontinente menor, que integrava o supercontinente global Columbia, a 1,8 bilhões de anos.
  • Antes de optar pela mancha branca em sua barbatana dorsal, Laurásia foi desenhada com um "osso" de enfeite na cabeça.
  • O tamanho dos personagens mais ou menos permanece na sua escala real. Cladoselanche tinha um comprimento de 1,8. Bandringa mal excedia um metro (na historinha possui 3). Cretoxyrhina é retratado com seu tamanho máximo (sete metros). O pliossauro tem por volta de 15 metros. Apesar disso, na capa suas escalas foram bem minimizadas.
  • Metriorhynchus sofreu uma pequena alteração, seus membros dianteiros assumiram a forma de remos, como sua contraparte real, diferentes da primeira versão em que possuía quatro dedos interligados por membranas.
  • Cretoxyrhina tem um olhar particularmente intimidador, até mais que o do Pliossauro. Sobre características dos personagens, ainda que sigam um padrão cartunizado, não são humanizados (não vestem roupas ou possuem cílios proeminentes). Alias, a diferença de sexo entre personagens é mostrada por meio de características físicas ou cores. Saura e as demais ictiossauros fêmeas são desprovidas de manchas. Para Bandringa foi dada um rosa claro para seus olhos.



Extras!


Semanalmente postava capítulos de Um menino, seu Saco de Pães e a Garota de Siriús, totalizando até o momento 10 partes. Gostei tanto do tema, com o ritmo a que está se desenvolvendo, que estou trabalhando melhor na criação do livro. Essa obra não tem data próxima de conclusão, mas ei de fazê-la. Além dessa, projetos na fila envolve livros trazendo como personagens Megaladonte e Espinossauro, uma história com base nos mitos africanos, além da conclusão do segundo volume da Turma do Fundo-Mar. 


Link para ler o primeiro Capítulo de Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Siriús - http://maresdacriatividade.blogspot.com.br/2014/12/um-contador-de-historia.html


Link sobre Bandringa (in english) - http://www.sci-news.com/paleontology/science-nursery-bandringa-sharks-01678.html



Link sobre Cretoxyrhina (em português) - htmhttp://www.avph.com.br/cretoxyrhina.htm


Link sobre Cretoxyrhina (in english) - http://www.prehistoric-wildlife.com/species/c/cretoxyrhina.html


Link sobre Helicoprion (in english) - http://www.prehistoric-wildlife.com/species/h/helicoprion.html





segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - VIII Capítulo




Quando o táxi parou enfrente a casa de número 30, Rua do Peregrino, esperavam-no três pessoas; uma mulher e duas crianças. A mulher sentou-se no banco do passageiro, ao lado do motorista. Séria, apenas tratou de informar qual o destino, a delegacia da cidade. O taxista ficou um pouco preocupado, mas não tentou puxar assunto – o ar carrancudo da mulher dizia o óbvio: nada de papo.
As duas crianças – um menino e uma menina – sentaram-se no banco detrás. O menino aparentava nervosismo. Suas roupas estão amarrotadas e sujas, e a pele morena do rosto cheia de carocinhos que o taxista sabia ser decorrente de picadas de mosquitos, além de pequenos cortes.
Mas é a colega do menino quem atrai os olhares do taxista. A única a estar em clima descontraído, ela, em nada, assemelhava-se a mulher ou ao menino. Nem em noites claras o céu exibia um tom azul tão intenso como a cor da pele do rosto daquela menina. Os longos cabelos – bem como sobrancelhas, olhos e lábios – eram de uma cor “prateada” forte, combinando com a roupa similar ao vistos naqueles filmes espaciais. No geral, achou a “fantasia” espalhafatosa e um tanto infantil.
Para Adriano, os pensamentos do taxista com relação a aquela “pessoa”, não importavam. Ninguém dentro daquele carro podia imaginar a sucessão de eventos que testemunhou na última hora, tão pouco compreendê-las. Do seu lado direito há uma ET que, aparentemente, não possuía dom da fala. Tudo a fascina, da estrutura interna do carro a observar sua imagem refletida no vidro.
A outra personagem excêntrica da noite é sua mãe, que havia decidido do nada irem à delegacia. Para quê ou porque, ela não disse.
Como grãos de milho pipocando na panela quente, a cabeça de Adriano estourava com teorias absurdas. Sua mãe o estaria levando para ser interrogado e posteriormente confrontar as versões da história? Poderia ela conhecer a verdadeira identidade de “Lúcia”? Como? Será que aparições de ET eram de conhecimento público geral, e só ele não sabia? Poderia a delegacia local atuar em parceria com autoridades governamentais no acobertamento de informações referentes à presença de seres extraterrestres vivendo na Terra? Se sim, que fariam com ele? O colocariam a par dos fatos ou o submeteriam a procedimento para esquecer tudo que viu? E sua mãe? Compactuaria com isso?



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Dobrando a esquina seguinte, o táxi entra na Alameda Coqueiral, rua da delegacia, seguindo por uma pista de mão única tranquila. Ao pararem, Adriano e “Lúcia” são os primeiros a descer.      Mantinham-se costas com costas, “Lúcia” fascinada com a luz do poste de luz, Adriano olhando fixamente para a entrada da delegacia.
- Venham. – Disse Firmina apressando o passo.
A delegacia não aparenta realizar catalogações de aparições de ET. Ao entrar via-se uma portinhola que dava acesso um corredor comprido cheio de portas. Do lado um balcão semicircular, onde um grupo de quatro pessoas se concentra. Correndo os olhos pelos presentes, Adriano vê uma mulher miúda de ombros caídos e expressão desolada; era Maria do Carmo.
Do Carmo lhe era como uma segunda mãe – tendo várias vezes buscado Adriano na pré-escola, ou o levado a alguma consulta. Tal como Firmina, “Do Carmo” (como gostava de chama-la) trabalhava de doméstica, complementando a renda fazendo doces por encomenda. A mulher que costumava ser o retrato vivo da alegria, agora parecia uma alma penada.
- Me esperem ali. – Firmina indicou uma fileira de bancos para o filho e "Lúcia", indo então falar com Maria do Carmo.
Se Adriano não entendia, ficou sem entender mais quando viu Rafael sair por uma porta, na companhia dos pais e de um homem baixotinho.
Rafael notou a presença de Adriano. Olhou dele para “Lúcia” e dela novamente para o amigo. Gesticulou com as mãos, tentando contar algo. Adriano faz o mesmo. A conversa por sinais não flui como esperado e os dois acabam tendo que parar – parecia que faziam micagem. Com a ida do amigo só restou a Adriano imaginar o motivo de ele ter estado ali. Teria contado todo o ocorrido no parque municipal?
Firmina aborda o homem baixotinho numa conversa bem breve. O homem olha para Adriano e “Lúcia” e gesticula com a mão, pedindo que viessem.
- Sou o delegado Felipe bom Coelho. – Apresentou-se o homem com bigodão de taturana. – Sua mãe contou-me que você e sua colega foram atacados. – Ele olhou “Lúcia” e prosseguiu. Não questionou o porquê de a menina estar daquele jeito. – Pode nos dar seu depoimento?
- Sim. – Adriano respondeu com o ânimo de quem encararia uma prova oral.
- Posso acompanha-los? – Pediu Firmina.
- Eu preferiria que não. Ele pode se sentir desconfortável ao falar na presença da mãe.
O delegado Felipe bom Coelho leva as duas crianças a sua sala, indicando gentilmente os assentos. A sala era pequena, sem nada que merecesse destaque. Adriano e “Lúcia” sentam-se diante uma mesa retangular, sobre a qual havia uma fina pasta azul. Lucia quis pegá-la, Adriano não deixou. O delegado fechou a porta atrás deles e os contornou, sentando-se atrás da mesa, de modo a ficar bem de frente a eles.
- Normalmente ouviria um por vez, mas a senhora sua mãe me disse que sua coleguinha não fala.
- Pois é. – Concordou Adriano, num sorriso forçado, olhando “Lúcia” que observava, hipnotizada, as lentas pás giratórias do ventilador de teto.
Felipe cruzou as mãos gordinhas sobre a mesa, dando início o interrogatório.
- Conte-me como o ataque se deu.
- Aconteceu quando voltava da padaria.
- Como ele o abordou?
- Ele meio que surgiu do nada, vindo pra cima.
- Estava armado?
- Não.
- Como era a aparência dele?
Adriano pensou um pouco – um monstro.
- Sim, sim, compreendo, mas quero que seja mais especifico. Viu o rosto dele?
- Sim.
O delegado se animou.
- Com o que se parecia?
Adriano voltou a se repetir – um monstro.
- Sim, sim, mas quero saber os detalhes faciais.
Adriano pensou.
- Ele tinha o rosto como o de um réptil.
O delegado torceu o bigodão de taturana.
- Um réptil?
- É.
- Hm, curioso, isso foge do modus operante tradicional. – Pensava consigo em voz alta. – Será que ele trocou o capacete por uma máscara?
Adriano não entendeu. “Trocou o capacete por uma máscara”?
- Desculpe senhor, ele não usava capacete nem nada.
O delegado se sobressaltou. – Ele os atacou pelado!?
- Bem, sim.
- Que coisa – Felipe recostou-se, coçando a gorda papada. – É totalmente fora do padrão de ação dele. Colhemos um total de trinta e nove depoimentos de vítimas, e todos descreverem o suspeito abordando-as vestido. Será que seu libido desenfreado o compeliu a táticas mais agressivas? Deus, que problema...
Adriano não entendia absolutamente nada. Quem era “ele” que o delegado supunha o menino tinha encontrado?
- Perdão, senhor, estou um tanto confuso.
- É natural. – Confortou Felipe. – Vocês passaram por uma experiência aterrorizante e pela graça de Deus escaparam ilesos. Tenha certeza que logo esse maníaco será preso.
Adriano sentiu que devia perguntar. – Maníaco?
- Sim, o maníaco do capacete. – Nisso Felipe pegou a pasta e tirou um papel. – Este é o retrato falado.
O desenho mostra um homem de compleição mediana usando um capacete preto de visor escuro.
Foi então que Adriano começou a juntar as partes do quebra-cabeça. Não é que sua mãe desconfiasse da história. O tempo todo ela pensava que ele e “Lúcia” tinham sido atacados pelo tal maníaco do capacete. Ainda bem que pelo menos isso foi esclarecido, Adriana estava prestes a contar tudo o que sabia sobre ET.
O delegado, Adriano e Lúcia deixam a sala. Firmina os esperava.
- Então? – Perguntou.
- Tivemos um papo gostoso. – Disse o delegado dando tapinhas camaradas no ombro de Adriano. – Não se preocupe senhora, dou minha palavra que esse maníaco será achado. E vamos localizar os pais dessa menininha linda.
Adriano não gostou do que ouviu. – Pera, ela... A Lúcia, vai ficar aqui?
- É claro. – Disse Firmina. – A policia vai se encarregar de contatar os pais dela.
- Mas mãe...
- Nada de “mas”. – Decretou Firmina. Ela se aproximou de “Lúcia” e lhe beijou a testa. – Tchau querida, cuide-se. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - VII Capítulo



Firmina das Graças podia ser considerada a típica mulher brasileira. No atual curso de seus 45 anos, desempenhava múltiplas funções: Provedora, dona de casa, mãe. Como provedora, trabalhava de diarista. Era exímia no que fazia: Passadeira, lavadeira, cozinheira. Dividia seis dias da semana em duas casas, tirando uma renda mensal de pouco mais de 1000 reais. Como dona de casa gostava de manter tudo arrumado e limpo. Não chegava ser perfeccionista, mas se alguém, mesmo visita, tentasse entrar sem antes limpar a solas do sapato, ela gentilmente indicava o capacho. Como mãe, Firmina fazia questão de ser presente na vida do único filho. Não raras vezes tinha conversas preventivas com Adriano sobre o perigo das drogas e sexo, o que às vezes soava exagero, pois o menino mal tinha acabado de adentrar a pré-adolescência.
No geral, a relação entre os dois não tinha nada que pudesse causar indignação. Firmina orgulhava-se do filho. Não o mimava, sabia dar carinho na medida certa, sem esquecer-se de repreender quando necessário. Criava regras e esperava que fossem cumpridas. E o descumprimento rendia castigos diferentes. brigas por banalidade ela não perdoava. Certa vez, Adriano ficou uma semana sem jogar videogame por conta de uma briga na escola (briga essa, a mãe soube, começou por conta de uma caneta). Noutra ocasião, castigou o filho com um mês sem ver televisão por atirar pedras na janela da vizinha (a mesma que tentou envenenar Sabão). Apesar do menino se defender alegando ter sido um ato “justo”, a mãe desaprovou. “Não se revida uma agressão com outra maior”.
Do que Adriano não podia fazer, em casa, uma ganhava status de mandamento: não levar ninguém em casa, na ausência da mãe. Principalmente meninas. Com a mídia noticiando casos e mais casos de adolescentes tendo filhos, a última coisa que Firmina queria era ser avó antes do tempo. Adriano não era popular com nenhuma menina, fosse do bairro ou da escola, tão pouco conversava com elas. 
Em pouco mais de onze anos e meio de convivência, Adriano aprendeu a identificar quando sua mãe falava sério, e, naquele instante, sentia-se num barquinho a deriva no mar tempestuoso.



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“- Quem é essa menina?”, “- Porque ela tá vestida assim?!”, “- Que cor é essa?!”, “- Que sujeira é essa na sua roupa?”, “- Porque seu cabelo tá molhado?!” “- Onde você tava?”
Uma metralhadora giratória não seria capaz de acompanhar o ritmo com que Firmina disparava suas perguntas. Não gritava, mas falava com voz de quem exigia absoluta atenção.
- Mãe, essa – Adriano parou, fitando a expressão severa da mãe. Como explicaria aquilo?
A menina continuava explorando os objetos da sala, como se a discussão não a envolvesse.
- Quem é essa menina?
- Ela – Adriano forçava cada neurônio pensando no que dizer. Infelizmente, nada lhe ocorria.
- Você foi à padaria depois que saiu daqui?
- Fui – Apressou-se a dizer. – o pão tá lá no cesto.
A mãe foi à cozinha, confirmar, voltando em instantes.
- E ela - Perguntou, indicando a menina que examinava a superfície da tela da tevê de 30 polegadas.
- Encontrei com ela no caminho de volta. - Contou. Não mentiu totalmente, ainda que omitisse a ida ao parque municipal.
A próxima pergunta, porém, tornou a desarmá-lo.
- Qual o nome dela?
Adriano hesitou.
- Qual o nome dela? – Tornou a perguntar. – Trouxe alguém pra dentro de casa que nem conhece?
- Não mãe.
- Então, qual o nome dela?
Pressionado, Adriano falou o primeiro nome que veio na cabeça. – Lúcia.
A mãe apertou os olhos, desconfiada. Firmina conhecia todas as meninas do bairro, e nenhuma se chamava Lúcia. Adriano pode ter dado um tiro no próprio pé. 
- Porque ela está assim?
- Assim como?
Firmina projetou um olhar tão ameaçador que o sorriso frouxo do filho desapareceu em segundos.
- Não banque o bobo comigo. – E olhou bem dentro dos olhos do filho. – Porque ela está vestida assim? E essa cor?
Adriano sentiu que navegava por cima da crista duma onda colossal. No fundo queria dizer toda a verdade. Que o nome dela não era Lúcia, que ela era um Alien, um ET que encontrou em sua ida até o parque municipal, que ela o salvou de ser devorado por uma espécie reptiliana de ET. 
- Não me diga que ela faz aquela coisa de japonês lá.
- Coisa? – Adriano não entendeu.
- Você sabe do que estou falando.
O menino ficou confuso.
- Não, juro que não sei. – Disse sincero.
- Aquela coisa – Firmina busca lembrar. – que imita aqueles desenhos japoneses que você assiste. Coplai.
- Cosplay?
- É é, isso.
Foi como se a onda quebrasse, arremessando o barco para um lugar seguro. Podia ser a desculpa perfeita, pensou Adriano enquanto via “Lúcia” pressionando os botões do controle-remoto. Olhando-a com calma, realmente “Lucia” dava a impressão de estar pronta para participar de uma convenção cosplay. Não fugia a possibilidade, a cidade já tinha realizado duas convenções do gênero.
- Alias que tanto essa menina xereta as coisas? – Firmina avançou e tomou o controle-remoto das mãos de “Lúcia”. – Cuidado, isso é frágil.
Lúcia encolheu os ombros, os olhinhos platinados brilhavam assustados, porém Firmina não liga isso à forma com que se dirigiu a ela.
- Que é que você tem? – Firmina olhava tão perto do rosto de “Lúcia”, que seus narizes quase se tocaram. – Ela não fala? – E voltou-se para o filho.
Depende do que a mãe considerava “falar”. Vinda de anos-luz do planeta Terra, as chances de “Lúcia” falar português brasileiro, ou outro idioma, eram tantas quanto Firmina acreditar em vida alienígena. Olhando as vestes do filho com a compenetração de uma águia, a mãe sentiu estar na pista de algo.
- Que houve para você estar desse jeito?
Adriano soluçou. Sua mãe não era ingênua a ponto de que aceitaria a velha história “eu tropecei”. Além disso, ela também olhava seu rosto, exatamente para os carocinhos feitos pelas mordidas de mosquito. E embora Lúcia tivesse apagado o corte de seu braço, havia cortes menores espalhados pelo rosto e braços. 
- Você estava fugindo de quem?
Adriano tornou a soluçar. Sempre que estava nervoso soluçava.
A mãe parecia estar na pista de uma grande descoberta.
- Esperem-me aqui, vocês dois. – E saiu.
Depois daquele interrogatório, Adriano caiu de bunda no chão. Nem bem fizera isso, a mãe estava de volta. Não parecia diferente, exceto pelo calçado. Tirou a sandália de dedo e pôs um sapato formal.
- Vamos indo.
Adriano estranhou. - Pra onde? 
- Vamos à delegacia. – Decretou a mãe.
O barco conseguiu escapar da onda para cair na borda dum redemoinho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - VI Capítulo



A primeira coisa em que Adriano pensou foi fugir. Mas esbarrou na questão “fugir para onde?”. Já estava em casa, o lugar mais seguro que conhecia. Pensou, então, ligar para a polícia. Isso gerou outro problema: o que diria? “tem uma criatura estranha em meu quarto?” O policial o mandaria a merda e ainda lhe daria esporro por usar o número de emergência para brincadeiras. Podia contatar a mãe, mas desistiu ao lembrar, amargurado, que havia deixado o celular sobre a cômoda no quarto.
Ficando sem opções, o menino pensa em ele próprio tirar aquela coisa de seu quarto. Aos sons de latidos animados de Sabão, armou-se de toda coragem e entrou no quarto, os punhos fechados e uma expressão de absoluto pavor. Quando a criatura estendeu-lhe a mão, Adriano deu um pulo para trás e desembestou porta afora, indo refugiar-se no banheiro.
Tremendo no escuro, dentro do Box, a atenção de Adriano está toda voltada para a fenda do pé da porta, onde viu uma luz brilhante azulada passar. A criatura havia deixado seu quarto.
Simplesmente não conseguia pensar numa solução. Estava sozinho, morrendo de medo, bem debaixo duma goteira do chuveiro. Ouvia os latidos alegres de Sabão, imaginando que por ser filhote ele ainda não era capaz de associar o desconhecido ao perigo. “Que essa coisa quer aqui?”, “Porque comigo?”, “Que devo fazer?”, se repetiam ininterruptamente, sem dar conforto ou solução. Era uma tortura não saber o que fazer e continuar com aquelas perguntas. “Que essa coisa quer aqui?”, “Porque comigo?”, “Que devo fazer?”...
Estranhamente, Adriano começa a enxergar a imagem de sua mãe. De ar zangado, a mesma mexia os lábios, falando algo, porém não saia som. Ao redor dela as frases “Que essa coisa quer aqui?”, “Porque comigo?”, “Que devo fazer?” multiplicavam-se desordenadamente, avolumando-se e embaralhando-se.
Adriano lutava para manter-se atento a imagem autoritária da mãe, ainda falando sem produzir som. O mar de questões cada vez mais crescia e avançava. Quando enxergou sua mãe brandindo um rolo de macarrão, o menino perfurou através das marés de letras e sílabas, até visualizar a expressão nervosa de sua mãe.



“Você não tem problema, você os cria”


Imediatamente todas as dúvidas se dissiparam, deixando Adriano sozinho. Sua mãe tinha o hábito de dizer que os problemas são fruto do próprio receio em tomar decisões. Não mais refém disso, Adriano, com a cabeça ensopada, levantou-se e destrancou a porta. O corredor está vazio. Pelo som dos latidos alegres de Sabão, concluiu que estavam na cozinha.
Não havia luz exceto a estranha luminosidade que era emitida pela criatura. Adriano parou na entrada da cozinha e apertou o interruptor. Uma luz amarela mostarda clareia o ambiente.
O cachorrinho Sabão abanava freneticamente o rabo. Não olhava Adriano e sim uma menina parada em pé entre a pia e a geladeira. Não era um fantasma, apesar da superfície do corpo da garota desprender pequenas emissões de luz azul-esbranquiçada. Vestia uma roupa que parecia algo saído de um filme de ficção científica sobre o espaço; usava uma espécie de macacão prateado, com botas e ombreiras pretas. Mas o que despertou a atenção de Adriano foi o tom de pele do rosto e mãos; não era branca, como de seus amigos, nem morena como a sua. Era azul escuro, igual o mar. Os lábios, sobrancelhas, cabelo e olhos, era branco platinado.
Do cãozinho Sabão, a menina olhou para Adriano e sorriu.
- Eeeh, hmm – Murmurou, pensando no que dizer. – O-Oi. – Gaguejou. – De onde você é? – Esperou uma resposta, mas a menina nada diz. – Claro. – Disse dando um tapinha na própria testa. – Se você veio de outro planeta não deve saber falar minha língua. – Concluiu, tentando controlar o nervosismo. Não sentia que corria perigo, mas aquela situação o deixava desconfortável. 
Não tardou para Adriano perceber que a menina estava mais interessada com relação aos objetos da cozinha. Pegou com as duas mãos um dos pãezinhos que Adriano trouxera, e o examinou. Encostou o nariz para sentir o cheiro, apalpou-o algumas vezes. Tornou a olhar Adriano e lhe estendeu o pão.
- A-Ah, obrigado, tô sem fome. – Adriano arriscou-se a se aproximar. – O nome disso é “pãozinho”. – Disse apontando para o que a menina tinha nas mãos. – Serve pra comer.
A menina olhou para o objeto que segurava, tornando a oferecê-lo a Adriano. – Obrigado. – Agradeceu Adriano, aceitando o “presente”. Achou que melhor não contrariá-la. Pegando o pãozinho, Adriano o parte em duas metades dando uma delas ao agitado Sabão. – Viu, é de comer.

A menina acompanha com os olhos o cãozinho ir comer o pedaço de pão debaixo da mesa, o rabo abanando feito um espanador. Pareceu compreender a associação do pão como comida porque pegou outro, dividiu-o em duas metades e ofereceu uma delas a Adriano, que sem-jeito aceita.
- Que foi? – Adriano olhou a menina cujos olhos ficaram arregalados de susto. Ela olhava direto para o machucado em seu braço, resultado de quando tentou fugir dos ETs reptilianos. – Não é grave. – Tranquilizou. – Só vou ter de passar merthiolate e
Adriano não concluiu a frase. A menina agarrou seu braço, expondo o corte. Mesmo o menino dizendo que não era nada, não escondeu a surpresa de ver o tamanho do corte. Mais ou menos da metade do comprimento duma régua.

Com os indicador e médio da mão direita, a menina passa os dedos sobre a ferida. Adriano teve a sensação que um zíper ia se fechando sobre o machucado. Em segundos, o corte deixa de existir.
- Uau. – Exclamou maravilhado. – Que poder daora!!
A menina seguiu explorando tudo que via. Pegou o copo que Adriano havia deixado sobre a pia, e este se quebrou em suas mãos. Aproximou-se duma tomada próxima dum micro-ondas. Ia enfiar o dedo quando Adriano a puxou pelo outro braço. Precisava tirá-la da cozinha, assim como Sabão, para que não se machucassem com os cacos de vidro do copo.
Sabão foi fácil convencer. Só precisou dar outro pedaço de pãozinho e lá se foi o cachorrinho para o quarto do menino. Já fora da cozinha, Adriano leva a menina até a sala. Ali não havia objetos quebráveis, pelo menos não que pudesse machucá-la. Enquanto ela fica encantada, examinando a cortina, Adriano corre para colher os cacos de vidro. 
Limpando tudo voltou correndo pra sala, onde a menina continuava examinando minuciosamente o tecido da cortina, admirando o desenho de flores margarida. Pensando no que dizer, ouviu o som inconfundível de molho de chaves e portas se abrindo: sua mãe chegara.
- Absurdo, que absurdo. - Resmungava ela, passando frente a sala e detendo-se quando viu Adriano, seu filho, em companhia da estranha menina. Ela não gritou, mas algo em sua fisionomia dizia a Adriano para preparar-se para enfrentar um tsunami.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - V Capítulo



Ignorando o comando instintivo que dizia “corra” ao corpo, Adriano fica imóvel. Aos pouquinhos foi-se se erguendo, até ficar ereto, o tempo todo olhando a criatura nos olhos, sem piscar uma vez sequer. Não eram olhos que podiam ser considerados atraentes, longe disso. Redondos e miúdos passavam uma impressão desconfortante de se estar olhando e sendo observado por algo de natureza ardilosa e ruim. E mesmo seu intimo o alertando do perigo que corria, Adriano não conseguia deixar de olhar, como admiração, aqueles olhos.
Na sua visão, a criatura de aspecto reptiliano parecia algo sagrado, impossível de explicar em palavras, contornado de uma luz resplendorosa, a própria personificação da glória. Tal luz crescia em pujança, clareando a vegetação próxima. O corpo da criatura é reduzido a um contorno escuro, caindo aos pedaços aos pés de Adriano. O menino demorou a perceber o que realmente tinha acontecido. Como quem acabara de acordar de um sonho, olhou assustado o chão a sua frente, vendo os restos mortais da criatura. Ergueu os olhou e viu o que só pode imaginar ser um fantasma.
Num baque, todo raciocínio antes suprimido, voltou com força total. Adriano pôs-se a correr com tamanha energia, que seria um desafiante a altura de Usain Bolt para o título de novo campeão na corrida dos cem metros rasos. Cortando o mato como uma flecha, só parou ao quase esborrachar a cara no muro. Estava na direção certa, pois viu um pedaço da perna que identificou como sendo de Bernardo, passando pelo buraco. Seguiu-o.
- E Rafael?!
- Já se mandou!! – Disse Bernardo, machucando a perna ao escorregar o pé no pedal.

O peso extra de Adriano pareceu não fazer diferença, Bernardo pedalava como se estivesse sozinho. No caminho de volta os dois não se falam. Obviamente assustados com o que viram, só desejavam voltar para casa e enfiar-se debaixo das cobertas.


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Adriano pediu a Bernardo que parassem na esquina de casa – não queria que o amigo visse a bronca que levaria de sua mãe caso ela estivesse esperando no portão de casa. Exatamente que horas eram não sabiam. Devia ser tarde porque não havia mais sacos de lixo enfrente as calçadas das casas. O lixeiro já tinha passado.
- Até amanhã.
- Até qualquer dia. – Corrigiu Adriano, ciente do preço que pagaria pela longa ausência seria um cárcere indeterminado. – Tenta descobrir se Rafael chegou em casa.
Bernardo ainda acenou com a cabeça, desejando boa sorte, tomando o caminho oposto ao qual viera. Agora era Adriano, sua mãe e uma noite tentando explicar o inexplicável.


Ao se aproximar do portão, viu um bilhete grudado.






Adriano conhecia a amiga de sua mãe, a “vizinha” Maria do Carmo, que não era tão “vizinha” assim, dada a casa desta ficar no finalzinho da rua. Era comum ambas se visitarem, principalmente sua mãe, que tinha disposição para ir a casa de Maria do Carmo levar roupinhas ou qualquer coisa para as duas menininhas da amiga.  

De repente, um estranho ânimo avivou-se em seu rosto. Se sua mãe deixou aquele bilhete, então ela deve ter saído algum tempo depois dele próprio ao ir a padaria comprar o pão. Significa que não precisaria explicar sua ida ao parque municipal, pelo menos por enquanto. Era bom porque ele não tinha ideia de como iria explicar aquela história.
Entrou na cozinha, tirou os pães de dentro do saco estropiado e os colocou no cesto. Pegou um copo, encostou-se a pia junto ao bebedouro. Sentiu-se saciado com o decimo copo d’água.

Cansado, decidiu ir para o quarto. Foi nesse trajeto que deu-se por falta de algo; Sabão ainda não apareceu. O cachorro não ficava do lado de fora desde quando a vizinha tentou envenená-lo. Após uma “calorosa” discussão com sua mãe, a mulher terminou que por se mudar, e Sabão passou a ficar sempre dentro de casa, saindo apenas quando ou Adriano ou sua mãe estavam em casa. Ainda filhote, com 2 anos, qualquer um que entrasse na casa, logo ele surgia para fazer festa. Se o bichinho não tinha aparecido, Adriano só conseguia imaginar duas hipóteses (uma pior que a outra). Ou ele fugiu, ou foi roubado. Se fosse o caso fazia sentindo sua mãe ter saído, mas ter-se ido encontrar com Maria do Carmo... Simplesmente não encaixava.


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Imaginando o pior, correu apavorado até o quarto. A primeira coisa que viu, ao abrir a porta do quarto, foi um tufão peludo de quatro pernas. Sabão, seu cãozinho vira-latas, pulava a seus pés, alegremente. O bichinho, porém, não era a única coisa viva ali dentro. Parada próxima à janela estava à coisa que viu no parque.
O "Fantasma" o seguira.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - IV Capítulo




Por entre as frestas da madeira apodrecida, o trio espia a cena de um crime. O que acreditavam ser a vítima encontrava-se caída, já sem vida, debruçada sobre um monte de folhas. Sua identidade é especulativa; branco ou negro, homem ou mulher, velho ou criança, impossível dizer. Do tórax pra baixo não havia mais corpo. Melhor dizendo, parecia uma geleia a diluir-se. A atenção do trio muda, vagarosamente, para a criatura esguia parada próxima do cadáver.
Viam algo de aparência humanoide. De altura calcularam 1,80. O corpo era magro escamoso, similar a uma cobra, emitindo um brilho verde fosforescente. A cabeça era pequena, de formato oval, sem cabelo ou orelhas, sobrancelhas ou nariz. Os olhos eram redondos e pequeninos, como duas bolinhas de gude, e a boca larga e descarnada.
Rafael sente algo extremamente ruim debatendo-se em seu estômago. Adriano imagina se sairiam dali com vida. Em caso afirmativo, aceitaria de bom grado o castigo de sua mãe, mesmo que significasse passar o resto da vida preso dentro de casa. Em caso negativo, será que alguém acharia e reconheceria seus restos mortais? As emoções de Bernardo podem ser descritas como um misto de fascínio e pavor. Estava diante do Santo Graal da Ufologia. Sem dúvida “aquilo” abalaria os alicerces da comunidade científica, religiosos precisariam rever seus dogmas. Acima de tudo isso, duas coisas ficaram evidentes. A primeira é que ETs existiam e não eram bonzinhos.  
SSSSSSSSSS - O som sibilante vinha do lado oposto a do trio, próxima do ET. Rafael apertou com força o skate embaixo do braço, Adriano deixou escapar um inaudível “Ferrou”. Bernardo esfregou os olhos até machuca-los. Era verdadeiro o segundo ET que viu surgindo da vegetação, silencioso tal qual um gato. Seria possível uma colônia alienígena estar vivendo ali?
Se ali havia dois tipos distintos - um casal - era impossível dizer, pois um parecia o reflexo do outro, sem nada em sua anatomia que servisse para identificar macho ou fêmea.  O segundo ET aproxima-se de lado do primeiro, não o encarando. Então ele faz algo que deixa Bernardo intrigado: colocou fora sua língua bifurca, como querendo experimentar o ar. De repente, Bernardo sente que corriam perigo. Se aqueles ETs tinham morfologia ofídica, então a língua bifurca deles desempenharia a mesma função do das cobras; sentir odores.
Bernardo puxa levemente Adriano pela camisa, que entende que deviam partir. Ao cutucar Rafael, foi como se acionasse forças invisíveis que o menino lutava querer liberá-la. A coisa que se revirava no estômago do garoto galga seu caminho para a liberdade, do esôfago até a faringe, saindo pela boca na forma de vômito.
Bernardo e Adriano congelaram. Quando Adriano tomou coragem para checar se os ETs tinham-nos detectados, um deles, com incrível agilidade, já corria sentido a eles. Subindo no tronco caído, a criatura os observa com curiosa atenção. Sem reação, os meninos mantêm-se imóveis.
Surpreendentemente, Rafael é quem toma a iniciativa. usando o skate, golpeia o rosto da criatura, que se desequilibra e cai, debatendo-se feito um pássaro abatido.


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O ato de bravura é efêmero. Os meninos não ousam olhar e ver se as criaturas estão no seu encalço, correm o mais rápido que suas pernas conseguem.
Rafael e Bernardo pareciam ter incorporado avestruzes. Adriano estava particularmente mais lento. E quando o saco de pães enganchou-se num galho, ficou definitivamente para trás.
Faria sentido se largasse o saco de pães. Afinal, uma mãe sensata compreenderia que seu filho querido precisou deixar os pães do lanche para evitar de servir de comida para criaturas reptilianas alienígenas. Porém o menino não ia desistir. Ao puxar com todas as forças, o saco plástico veio junto com um galho coberto de espinhos. Nem um cantor amador no Karaokê teria dado um berro tão alto como de Adriano. O ferimento é superficial, mas este não era o problema. Um dos ETs o encontrou.